Pular para o conteúdo principal

A Saga do Ovário: por que o câncer de ovário ainda desafia médicos e pacientes?


O ovário é um órgão localizado na pelve feminina, intimamente relacionado às trompas uterinas. Sua principal função ocorre durante o período reprodutivo da mulher, desde a menarca (primeira menstruação) até a transição para a menopausa. Além de produzir os óvulos, os ovários são responsáveis pela síntese de hormônios fundamentais para o funcionamento do organismo feminino, como o estrogênio e a progesterona.

Ao longo da vida, é relativamente comum o aparecimento de cistos ovarianos. Estima-se que entre 10% e 20% das mulheres desenvolvam algum tipo de cisto ovariano em determinado momento. Após a menopausa, essa incidência diminui significativamente. Entretanto, o surgimento de uma lesão ovariana nessa fase da vida merece atenção especial e investigação criteriosa, uma vez que o risco de malignidade torna-se proporcionalmente maior.

Atualmente, dispomos de métodos cada vez mais sofisticados para avaliar massas ovarianas. Exames de imagem, especialmente a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética, podem ser interpretados por sistemas padronizados de classificação de risco, como o O-RADS (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System) e os modelos desenvolvidos pelo IOTA (International Ovarian Tumor Analysis Group). Essas ferramentas auxiliam os médicos a diferenciar lesões provavelmente benignas daquelas com maior suspeita de malignidade, contribuindo para a tomada de decisão entre acompanhamento clínico, tratamento medicamentoso ou abordagem cirúrgica.

A investigação não se limita aos exames de imagem. A história clínica detalhada, incluindo antecedentes pessoais e familiares de câncer, é fundamental. Além disso, alguns marcadores tumorais podem auxiliar na avaliação, entre eles o CA-125 e o HE4 (Human Epididymis Protein 4).

O CA-125 é o marcador mais conhecido, mas apresenta baixa especificidade. Seus níveis podem estar elevados em diversas condições benignas, como endometriose, miomas, doença inflamatória pélvica e até mesmo durante a menstruação. Já o HE4 tende a apresentar maior especificidade para neoplasias epiteliais do ovário, especialmente quando utilizado em conjunto com outros métodos diagnósticos. Ainda assim, nenhum marcador isoladamente é capaz de confirmar ou excluir o diagnóstico de câncer.

Mas afinal, por que o câncer de ovário continua sendo um grande desafio?

O câncer de ovário é conhecido como uma doença silenciosa. Cerca de 70% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando a doença já se disseminou para outras regiões da cavidade abdominal. Esse diagnóstico tardio está diretamente relacionado à ausência de sintomas específicos nas fases iniciais e à inexistência de um método de rastreamento eficaz para a população geral.

Diferentemente do que ocorre com o câncer do colo do útero, rastreado pelo exame citopatológico, ou com o câncer de mama, rastreado pela mamografia, não existe atualmente um exame que tenha demonstrado reduzir a mortalidade por câncer de ovário quando utilizado em larga escala.

A ultrassonografia e os marcadores tumorais podem auxiliar na investigação de pacientes com sintomas ou alterações suspeitas, mas não apresentam desempenho adequado para rastreamento populacional. Muitas vezes, quando os exames se tornam claramente alterados, a doença já se encontra em estágio avançado.

Outro aspecto fundamental refere-se ao tratamento cirúrgico. Quando há suspeita de câncer de ovário, o planejamento da cirurgia é extremamente importante. Sempre que possível, a remoção da lesão deve ocorrer de forma íntegra, evitando a ruptura tumoral e o extravasamento de seu conteúdo para a cavidade abdominal, situação que pode impactar o estadiamento da doença.

Da mesma forma, biópsias percutâneas guiadas por ultrassonografia ou tomografia geralmente não são recomendadas nos casos de massas ovarianas potencialmente ressecáveis, pois podem aumentar o risco de disseminação tumoral e comprometer o planejamento terapêutico. Existem situações específicas em que a biópsia pode ser indicada, mas essa decisão deve ser cuidadosamente individualizada por equipes especializadas.

A jornada da mulher com câncer de ovário é frequentemente complexa. O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar envolvendo ginecologistas oncologistas, oncologistas clínicos, radiologistas, patologistas, geneticistas, enfermeiros e diversos outros profissionais de saúde.

A experiência da equipe responsável pela cirurgia inicial tem impacto direto nos resultados do tratamento. Um adequado estadiamento cirúrgico, associado à máxima remoção possível da doença quando presente, é um dos fatores mais importantes para o prognóstico da paciente.

No entanto, tão importante quanto a técnica e o conhecimento científico é a capacidade de ouvir. Cada mulher chega ao consultório trazendo dúvidas, medos, expectativas e uma história de vida única. Compreender suas necessidades e acolher sua família são partes fundamentais do tratamento.

A saga do ovário não se resume apenas ao diagnóstico e à cirurgia. Trata-se de uma jornada que exige ciência, experiência, planejamento e, acima de tudo, humanidade.

Fonte:
- Sung H, Ferlay J, Siegel RL, Laversanne M, Soerjomataram I, Jemal A, et al. Global Cancer Statistics 2024. CA Cancer J Clin. 2025;75(1):1-35.
- Timmerman D, Testa AC, Bourne T, Ameye L, Jurkovic D, Van Holsbeke C, et al. Simple ultrasound-based rules for the diagnosis of ovarian cancer. Ultrasound Obstet Gynecol. 2008;31(6):681-90.
- Andreotti RF, Timmerman D, Benacerraf BR, Bennett GL, Bourne T, Brown DL, et al. O-RADS US Risk Stratification and Management System. Radiology. 2020;294(1):168-185.
- Menon U, Gentry-Maharaj A, Burnell M, Singh N, Ryan A, Karpinskyj C, et al. Ovarian cancer population screening and mortality after long-term follow-up in the UKCTOCS trial. Lancet. 2021;397(10290):2182-2193.
- National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Ovarian Cancer, Version 2025. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology.
- Colombo N, Ledermann JA. Ovarian Cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2023;34(Suppl 2):ii24-ii40.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Colonoscopia? “Que exame ruim”!

O câncer de intestino grosso — também chamado de câncer colorretal, por envolver o cólon e o reto — é o câncer mais comum do trato digestivo e ocupa atualmente a segunda posição em incidência entre homens e mulheres. Infelizmente, cerca de 67% dos casos ainda são diagnosticados em fases avançadas. Aproximadamente metade dos pacientes poderá desenvolver metástases no fígado em algum momento da evolução da doença, e a mortalidade varia entre 30% e 40% dos casos.  Durante o mês de março, conhecido como Março Azul-Marinho, ocorre a campanha de conscientização e prevenção do câncer colorretal. Os sintomas do câncer de intestino podem variar conforme a localização do tumor, já que o intestino grosso possui cerca de um metro de extensão. Entre os principais sinais de alerta estão: perda de peso não intencional, náuseas persistentes, perda de apetite, cansaço progressivo, anemia com palidez, presença de sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal — ora intestino preso, ora diarreia ...

Feridas que não cicatrizam!

O câncer de pele é o câncer mais comum no mundo, principalmente os chamados Carcinoma Basocelular (CBC) e Carcinoma Espinocelular (CEC). Eles têm ocorrência disparadamente superior à dos outros tipos de câncer. O melanoma, que surge das células responsáveis pela produção de melanina – produto que dá cor da pele –, é outro tipo de câncer de pele que possui comportamento muito agressivo, mas, felizmente, é bem menos frequente. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele sozinho será responsável por cerca de 263 mil novos casos por ano no triênio 2026-2028, número superior à soma dos três principais cânceres mais incidentes — mama, próstata e colorretal — que juntos totalizam aproximadamente 210 mil novos casos.  Mas o que o câncer de pele mais comum — CBC e CEC — possui que facilita muito a vida do paciente e do profissional de saúde? A facilidade de visualizar, reconhecer, diagnosticar e encaminhar para tratamento. Não é necessário exame complexo, hemogram...

O feminicídio e o câncer ginecológico

A triste morte sem sentido de mulheres ocasionada por desprezo, discriminação de gênero ou violência doméstica/familiar, o feminicídio, aumentou em 300% na última década. No ano de 2024, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o feminicídio foi responsável pela morte de 1501 mulheres e houve 3495 casos de tentativa desse ato cruel e desmedido.  O mesmo país que ainda convive com o aumento do feminicídio também enfrenta desafios importantes na prevenção e no diagnóstico dos cânceres ginecológicos. No mês de março, o março-lilás, tem como foco a prevenção do câncer ginecológico, sendo os principais, o câncer de colo de útero (3º em ocorrência nas mulheres), corpo uterino, comumente, o câncer de endométrio (6º em ocorrência) e ovário (8º em ocorrência) segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2026).   O câncer de colo de útero, dos cânceres ginecológicos é o mais comum, que tem como sintomas uma secreção persistente, dor pélvica, sangramento ...