Pular para o conteúdo principal

A jornada do paciente oncológico: muito além do diagnóstico


O atendimento médico começa muito antes da definição de um diagnóstico. Ele começa pela história de cada paciente.

Cada pessoa que chega ao consultório traz consigo uma história única. Uma história de vida. Carrega sua bagagem pessoal, seus valores, suas crenças, sua família, seus medos, suas expectativas e seus sonhos. E, como toda história, existe um começo, um meio e um fim. Como médicos, buscamos sempre escrever, junto com o paciente, o melhor desfecho possível e, sempre que a medicina permitir, um final feliz.

A jornada do paciente oncológico começa pela identificação da pessoa, e não apenas da doença. É essencial compreender quem está diante de nós. Conhecer sua idade, profissão, onde viveu, seus hábitos, aspectos religiosos, histórico familiar e a existência de doenças oncológicas na família. A consulta é um momento de escuta, acolhimento e construção de confiança.

Também é o momento de aliviar medos, angústias e incertezas. Antes mesmo de falar sobre tratamentos, é preciso entender o paciente como um todo e ajudá-lo a enfrentar uma das fases mais delicadas de sua vida.

A partir dos sintomas apresentados, iniciamos uma investigação cuidadosa para identificar sua causa. Felizmente, cerca de 90% das pessoas encaminhadas com suspeita de câncer apresentam doenças benignas ou condições que não têm relação com tumores malignos. Ainda assim, toda suspeita merece uma avaliação criteriosa.

Quando existe uma doença oncológica, é comum que o paciente já tenha passado por outros profissionais e realizado diversos exames. Muitas vezes esses exames ainda são inconclusivos ou não conseguem mostrar toda a extensão da doença. Nesses casos, antes de qualquer tratamento, precisamos estabelecer um diagnóstico preciso.

Isso exige uma avaliação clínica detalhada, frequentemente complementada por uma biópsia, que confirma o diagnóstico e identifica o tipo de tumor. Somente com essas informações podemos definir a melhor estratégia terapêutica.

Cada caso é analisado de forma individualizada. Avaliamos o tipo de tumor, suas características biológicas e moleculares, seu comportamento e a possibilidade de resposta aos diferentes tratamentos.

Revisamos cuidadosamente todos os exames disponíveis, como tomografias, ressonâncias magnéticas, ultrassonografias e outros métodos de imagem. Dependendo do órgão acometido, podem ser necessários exames específicos, como endoscopia digestiva, colonoscopia, exames ginecológicos, histeroscopia, colposcopia, ressonância da pelve, dermatoscopia, entre outros.

Cada detalhe faz diferença. Avaliamos o tamanho da lesão, sua localização, as relações anatômicas com estruturas vizinhas, o comprometimento de órgãos ou estruturas nobres, a presença ou não de disseminação da doença e todos os elementos que permitam compreender completamente aquele caso.

Além dos exames, o próprio corpo fornece informações extremamente valiosas. Um exame físico bem realizado continua sendo uma ferramenta indispensável. Ele permite avaliar o tumor, sua localização, possíveis sinais de doença avançada e outros aspectos fundamentais para definir a melhor estratégia de tratamento.

Somente reunindo todas essas informações conseguimos construir um plano terapêutico realmente personalizado.

A jornada do paciente com câncer, entretanto, nem sempre é simples. Muitas vezes ela é longa, desgastante e exige paciência. Em alguns momentos depende dos fluxos do Sistema Único de Saúde (SUS); em outros, das autorizações dos planos de saúde, da realização de exames complementares ou da disponibilidade de determinados tratamentos.

Existe ainda um desafio que vai além da medicina: a maioria das pessoas não está preparada para enfrentar uma doença grave. Muitas conseguem planejar durante meses uma cirurgia estética, uma viagem ou qualquer outro projeto pessoal. Organizam a vida financeira, familiar e profissional com antecedência.

O câncer, porém, não costuma esperar.

Na maioria das vezes, ele exige investigação rápida e tratamento no momento oportuno. E justamente por surgir de forma inesperada, encontra pacientes e famílias emocionalmente, financeiramente e logisticamente despreparados para enfrentar essa realidade.

Quando o tratamento é definido, ele sempre é individualizado. Alguns pacientes serão tratados apenas com cirurgia. Outros precisarão de quimioterapia. Em determinadas situações, será necessária radioterapia. Em muitos casos, utilizamos a associação dessas modalidades para oferecer a maior chance de sucesso.

A escolha do tratamento depende do tipo de tumor, de suas características biológicas, do estágio da doença, do órgão acometido e das condições clínicas do paciente.

Independentemente da estratégia utilizada, nosso objetivo permanece o mesmo: buscar a cura sempre que ela for possível e oferecer o melhor tratamento disponível para cada pessoa, com base nas melhores evidências científicas e em uma abordagem humanizada.

Mas existe algo ainda mais importante do que tratar o câncer: impedir que ele seja diagnosticado tardiamente.

Precisamos estar atentos aos sinais que o nosso corpo nos oferece. Pequenas alterações persistentes nunca devem ser ignoradas. Da mesma forma, é fundamental realizar os exames preventivos recomendados pelo Ministério da Saúde e pelas sociedades médicas, respeitando a idade, o sexo e os fatores de risco de cada indivíduo.

O diagnóstico precoce continua sendo uma das maiores armas contra o câncer. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as possibilidades de tratamentos menos agressivos, menores sequelas, melhores resultados e maiores chances de cura.

Por isso, a mensagem final é simples e extremamente importante: cuide da sua saúde antes que a doença apareça. Observe seu corpo, adote hábitos de vida saudáveis, mantenha acompanhamento médico regular e realize seus exames preventivos nos períodos recomendados.

Da mesma forma, cabe ao médico manter um olhar atento para as doenças malignas, cuja incidência cresce progressivamente em todo o mundo. Reconhecer precocemente os sinais de alerta significa oferecer ao paciente a oportunidade de um tratamento curativo e de escrever uma nova história — uma história com mais qualidade de vida, esperança e, sempre que possível, um final feliz.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Colonoscopia? “Que exame ruim”!

O câncer de intestino grosso — também chamado de câncer colorretal, por envolver o cólon e o reto — é o câncer mais comum do trato digestivo e ocupa atualmente a segunda posição em incidência entre homens e mulheres. Infelizmente, cerca de 67% dos casos ainda são diagnosticados em fases avançadas. Aproximadamente metade dos pacientes poderá desenvolver metástases no fígado em algum momento da evolução da doença, e a mortalidade varia entre 30% e 40% dos casos.  Durante o mês de março, conhecido como Março Azul-Marinho, ocorre a campanha de conscientização e prevenção do câncer colorretal. Os sintomas do câncer de intestino podem variar conforme a localização do tumor, já que o intestino grosso possui cerca de um metro de extensão. Entre os principais sinais de alerta estão: perda de peso não intencional, náuseas persistentes, perda de apetite, cansaço progressivo, anemia com palidez, presença de sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal — ora intestino preso, ora diarreia ...

Feridas que não cicatrizam!

O câncer de pele é o câncer mais comum no mundo, principalmente os chamados Carcinoma Basocelular (CBC) e Carcinoma Espinocelular (CEC). Eles têm ocorrência disparadamente superior à dos outros tipos de câncer. O melanoma, que surge das células responsáveis pela produção de melanina – produto que dá cor da pele –, é outro tipo de câncer de pele que possui comportamento muito agressivo, mas, felizmente, é bem menos frequente. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele sozinho será responsável por cerca de 263 mil novos casos por ano no triênio 2026-2028, número superior à soma dos três principais cânceres mais incidentes — mama, próstata e colorretal — que juntos totalizam aproximadamente 210 mil novos casos.  Mas o que o câncer de pele mais comum — CBC e CEC — possui que facilita muito a vida do paciente e do profissional de saúde? A facilidade de visualizar, reconhecer, diagnosticar e encaminhar para tratamento. Não é necessário exame complexo, hemogram...

O feminicídio e o câncer ginecológico

A triste morte sem sentido de mulheres ocasionada por desprezo, discriminação de gênero ou violência doméstica/familiar, o feminicídio, aumentou em 300% na última década. No ano de 2024, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o feminicídio foi responsável pela morte de 1501 mulheres e houve 3495 casos de tentativa desse ato cruel e desmedido.  O mesmo país que ainda convive com o aumento do feminicídio também enfrenta desafios importantes na prevenção e no diagnóstico dos cânceres ginecológicos. No mês de março, o março-lilás, tem como foco a prevenção do câncer ginecológico, sendo os principais, o câncer de colo de útero (3º em ocorrência nas mulheres), corpo uterino, comumente, o câncer de endométrio (6º em ocorrência) e ovário (8º em ocorrência) segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA, 2026).   O câncer de colo de útero, dos cânceres ginecológicos é o mais comum, que tem como sintomas uma secreção persistente, dor pélvica, sangramento ...